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11/08/2008 Gravata no sertão de Toricoeje Até então meu mundo era só Goiás. Ali estava tudo assentado. Mato Grosso era apenas um lugar de fronteiras, de poucas estradas. Um ponto de abertura para garimpos e de outros que vinham para o criame de gado.
Foi naqueles idos, 1952, que Zé Gravata alcançou, nos anos de sua juventude, a região de Toricoeje. Mas nada, conforme ele diz, acontece por acaso. Eu me lembro de ver um cachorro morto depois que cessou a nossa troca de tiros. Tiroteio que esparramou gente do comício do candidato Wilmar Guimarães, em Ivolândia.
No seu dizer, Goiás era lugar perigoso. Por todo canto está o perigo que a gente tem que saber desviar com jeito. Com palavra e jeito. Tava ali no meu canto quando um sujeito vem pro meu lado, difamou meu nome e de meus pertences todos. Mirei pra este e aquele lado e devolvi o desaforo e ainda citei a p (...) que tinha parido ele. Prestou não... Prestou não. Trocamos tiro, recebi um balaço na perna. Um cachorro morto no meio da rua e gritos de dor do cabra que tava do outro lado.
Expus meu patrimônio, minha vida, àquela gravidade para honrar a camaradagem que tinha com o governador Pedro Luduvico [Teixeira, 1891-1979], que foi, inclusive, me visitar no hospital em Goiânia. Ele estava acompanhado de dona Gercina Teixeira. Ali, com dores pra todo canto contei o ocorrido. Que havia breado com um falastrão segurando no cabo do meu revólver. Daí um seu assessor me perguntou se eu queria entrar pra polícia. Eu disse que não, seu moço. Não nasci pra certas disciplinas, gosto do viver livre e bom.
O médico e governador goiano de então o recomendou a um amigo residente em Aragarças, o farmacêutico Zezé Jacarandá. Ali, entre fregueses de sua botica fiquei assuntando o passar dos dias, mas já meio agoniado pelo trabalho. Eu sempre vivi disso, de trabalhar.
E assim, em 1953, botei meus pés em Toricoeje. Consegui minhas terras que naqueles tempos eram do governo e de quem tivesse peito para enfrentar o difícil. Toquei garimpos no córrego Desconhecido, fui capangueiro. O primeiro Chevrolet que rodou por aqui, naquele ano da minha chegada era de meus pertences, seu moço, de Zé Gravata.
Tive um meia-praça por nome de Martinzão. Em meu garimpo o picuá era solto, o garimpeiro podia vender o diamante para quem quisesse. Ele me vendeu o diamante e depois veio me chamou de ladrão. Discutimos. Ele me mandou recado dizendo que quem pudesse que atirasse primeiro. Tô ali quieto e ele chega com uma carabina 44 de 12 tiros. Entrincheirei, não houve mortes, mas saí da pendenga baleado.
Quem me vê assim pensa que sou valente. Sou não. Só nunca agüentei desaforo, seu moço. Hoje, aqui dessa minha bodega, Novo Beira Rio, recebo meus amigos. O mundo está evoluído. Agora, quando penso em errar já me agarro a olhar pra riba e peço conselhos porque tenho fé. Tanta fé que às vezes brigava rezando. Prova disso é que não tenho inimigo e prezo muito rezar o Ofício da Mãe de Deus.
Já vivi um pouco, seu moço. Quero viver o quanto puder. Tenho 83 anos contados, dez filhos e já perdi as contas de quantos netos e bisnetos tenho. A vida é coisa bonita porque é de Deus. Não fosse o arranca-rabo com aquele sujeito lá em Ivolândia talvez eu não tivesse descoberto Toricoeje, não é? Comentários (0) Sugerir Imprimir Topo Acessos (2032)
14/07/2008 O tempo que passa por Voadeira A densidade demográfica e o crescimento econômico de Barra do Garças pouco afetou o cotidiano de quem vive no povoado do Voadeira. Fundado por agricultores nordestinos nas primeiras décadas do século passado, ao redor de um posto de correios, ali assentado pelo Marechal Cândido Rondon quando da tessitura de seu telégrafo.
Desde então nos parece que a gente daquele lugar tenha feito um pacto entre o ser e o tempo. Este último, eu creio, parece passar indiferente por suas calçadas e por seus beirais já caídos da moda naquele desvão esconso de casinhas mirradas em ruas que convergem para o largo da igreja.
Este cenário muda de aspecto somente na passagem das estações. Assim que a primavera se anuncia Voadeira vive seus dias de glória com a Festa do Caju, logo depois chega a estação das chuvas e o verde daquele lugar se transforma em santuário nos sopés da Serra Azul que ao Norte fecha seu horizonte belo, mas de modo abrupto.
Naquele cenário vamos encontrar a moradora Minervina Maria de Souza, a Dona Periquita, de 82 anos e muito riso. Riso da alegria de estar viva, de ter à sua volta as coisinhas miúdas e que são de bom parecer aos olhos de quem enxerga a vida sempre pelo seu lado simples.
Periquita é baiana de Cícero Dantas e conta quase meio século de Voadeira que é pouco diante do labirinto de suas lembranças que se confunde com a história do povoado que, segundo disse, sofreu seu primeiro baque quando chegou a rede de energia em Barra do Garças. “Muitos correram pra lá, mas eu já sabia que dinheiro não dava em postes e fiquei aqui presa em meu sossego”.
Dona Periquita é viúva de José Siqueira de Souza, o Loro Baiano, de onde veio a alcunha de Periquita. De olhos ativos ela mira seu interlocutor e lembra que a festa do Divino Pai Eterno de seu tempo “contavam nove noites e gente que vinha de todos os cantos para devoção, mas tudo isso acabou, agora temos uma festa de três dias, e somente”.
Mãe de 13 filhos, sete estão vivos. “Os netos, quando contei, eram 28. Bisnetos, tenho mais de 30 e apenas um tataraneto. Não acho pouco porque gosto de família que é o começo de tudo”.
Periquita não é de muito sair. “Em Barra só vou uma vez por mês para pegar minha aposentadoria. Sou aposentada, graças a Deus. Não saio de casa e só visito os amigos quando estão doentes, por dever cristão e de amizade mesmo”.
Em seu dizer Voadeira precisa de tudo “porque não temos nada, o povo daqui é fraco de recursos, mas amparado por Deus”. Como se pode notar Periquita é religiosa, devota do padroeiro Divino Pai Eterno “e também de todos os santos porque não custa nada a gente acreditar”.
Certa vez uma agente insistiu para que ela fosse ao posto de saúde local para vacinar-se. “Eu pulei lá do outro lado e disse que não. A moça insistiu e eu pedi a ela que fosse embora e que me esperasse deitada, porque em pé a gente cansa”.
Sua receita para se chegar e viver bem aos 82 anos é fácil somente aos resignados, que no seu dizer são aqueles que fogem do vício e servem-se de mezinhas, os remédios caseiros de antanho que segundo diz faz um bem danado à saúde. Outros segredos que ela não esconde de ninguém é dormir e acordar cedo e evitar as tristezas.
Indago sobre sua saúde e ela diz orgulhosa nunca ter tomado injeção e que sua pressão nunca passou dos 12 por 8. No entanto ela se queixa, eventualmente, de dores nas costas depois de ter levado um tombo quando tocava galinhas para o poleiro. “Isso é um dor que vai passar com o tempo”.
Sim, tudo passa. Até o tempo que passa por Voadeira. Comentários (0) Sugerir Imprimir Topo Acessos (742)
12/02/2008 VOINA I MIR O texto abaixo é de um poeta que por enquanto faz de Cuyabá (y) sua morada. Em dezembro hospedou-se em minha casa. Leu alguns livros e partiu. A carta abaixo é pedido de desculpas. Ele acha que fiquei magoado por ele ter saído sem se despedir. Quem se lembra de adeus entre copos de vinho, Glauber? Glauber é poeta. Publicou um livro. Fez a noite de autógrafos em sua terra, Mineiros (GO). Contou-me que foi uma noite de farra. Versos soltos, meninas abraçando o poeta. Vamos à recente carta de Glauber que somente agora a torno pública: “Peço desculpas pelo meu repentino sumiço de sua casa que faz-me sempre tão bem... fui seduzido por vinhos, cervejas, pavês, bolinhos de arroz e outros mimos que uma mãe sabe tão bem proporcionar; perdoe a fraqueza bacante deste teu pobre amigo... cheguei ao término da leitura de "VOINA I MIR", ou seja "Guerra e Paz", existem nas derradeiras passagens momentos que podem converter uma vida dissipada em uma austeridade monástica, experimentei um desejo de simplicidade que nem mesmo a leitura de "A Doutrina de Buda" tinha me despertado, é incrível como a literatura de nosso irmão russo é ao mesmo tempo bela e edificante; Tolstoi acreditava, assim como Tagore, que o livro deveria cumprir um papel moral além de possuir inextrincável valor estético... uma beleza humana povoada de um horror pelo supérfluo e frívolo, ensinamentos vindos da boca de Karataiev e tão bem assimilados por Pedro, que tinha como que o coração ferido ao virar as páginas e constatar minha absurda hediondez e lamentável estado de ignorância perante o espetáculo belíssimo da vida... sorria Pedro ao olhar seus descalços pés enquanto prisioneiro era, tendo-os como símbolos das transformações interiores que atravessava com o coração liberto de convenções e artificialismos... um livro soberbo, daqueles que me garantem com convicção, que se muitas pessoas o lessem, não estaríamos em um mundo tão brutalmente desumano, pois tem esse livro o poder de lapidar o caráter das almas sensíveis... Li "Os Cães Ladram" e acheio-o um livro escrito com um estilo que ousaria a comparar a Oscar Wilde, pois tão sutilmente verifiquei a escrita ali trabalhada, que o assunto de cada capítulo se tornava interessante pela bela maneira que o autor o descrevia, independente de ser Nova Orleans ou Marlon Brando...  Truman Capote é um senhor escritor, e se o que li é um livro de jornalismo, cousa que não acredito, deve ser ele um prosador duma beleza mais que arrebatadora... Não é encantador essa capacidade do ser humano em reverenciar o estilo moral e monástico de Tolstoi para logo depois se inebriar com o mundanismo burguês de atores de cinema ?... Leio "Tom Jones", de Henry Fielding, as dimensões físicas do livro devem ser de você conhecidas; já o leste? É encantadoramente escrito em uma prosa de refinada ironia e estilo apurado, é quase como se lêssemos um enorme poema em prosa, tão bem lapidares são as frases que nos contam a história em apaixonante narrativa ferina para com a tão compassiva hipocrisia da época... Leitura imprescindível para quem deseja aprender a escrever... Faça-me o obséquio de remeter-me dois livros teus ("Trilogia Suja de Havana" e "Por quem os Sinos Dobram" )?... Por acaso já vistes o filme do Kurosawa? Gostastes do CD de Jazz? Tenho incomensuráveis saudades de ti e dos teus. Abrace a todos e comunique-lhes minhas imperdoáveis desculpas... Com sincero afeto, um abraço do sempre teu, Glauber”. Comentários (0) Sugerir Imprimir Topo Acessos (1398)
24/01/2008 Autor revela em livro compromisso histórico O cronista Edson Marques da Guia acaba de retirar do seu arquivo
pessoal um pedaço da história de Mato Grosso. Metódico, ele registra
com riqueza de detalhes o muito daquilo que viveu apartir dos idos dos
anos 20 numa corrutela do rio Café, afluente do Garças. Neste seu último livro, Recanto da Minha Terra,
Edson resgata lembranças de moradores da extinta Cafelândia, uma entre
tantas vilas de garimpos que nasceram e sumiram gradualmente naqueles
dias de euforia na região sul do Estado, um território rico em monchões
e grupiaras que por volta de 1910 começou a receber levas de migrantes
do Maranhão, da Bahia, Goiás, de São Paulo. Foi naquele palco
que o menino Edson coloriu sua infância, nas barrancas do rio Café.
Como outros jovens de sua época ele foi garimpeiro e depois lapidário.
Edson não traiu suas raízes e por isso as resgata em seu livro. Conheci
Edson no final da década de 60 quando estudamos em um mesmo colégio. A
diferença de idade não inibiu a nossa amizade. Edson já era um senhor
casado e tinha uma oficina de lapidação de diamentes. Fizemos muitos
trabalhos escolares enquanto ele polia as pequenas pedras de seus
clientes.  | | Edson Marques da Guia, na manhã de autógrafo em Alto Araguaia (MT) |
Eu freqüentava sua casa e também sua estante de livros em Alto Araguaia (MT).
Logo descobri ser ele um amante da ciência, da literatura, da música.
Naqueles dias Edson já cultuava a poesia como uma companheira de seus
momentos de reflexão. É por isso que as páginas do Recanto...
estão repletas dos costumes de época que, se não registrados em livros,
estarim sujeitas à traça do tempo que a tudo consome. Apenas para citar
um exemplo o autor arranca do limbo histórioco o mais importante
confronto armado da região, o ‘aranca-barba’ entre Morbeck e Carvalinho. Edson
apanha expressões valiosas como “fecha-nunca” que era o nome que se
dava ao cabaré onde moças solteiras se entregavam ao desfrute,
“tira-torto” era café da manhã, “voador” ficava para o biscoito peta,
que é prima do mangulão e, “rela-bucho” o sinônimo dos bailes menos
elitizados da época. O esposo traído nos arredores das
grupiaras, conforme recorda Edson, lavava sua honra no sangue de quem o
ultrajava. As salas-de-estar para os causos contados no vão da noite
eram alumiados pela luz de candeias e lá fora podia-se ouvir passos de
um pé-de-garrafa rondando a casa. Não preciso dizer que naquele
cenário de faroeste a violência corria solta. A cachaça regava a
alegria de muitos e somente os mais providos se davam ao luxo de uma
garrafa de Conhaque Macieira ao som de um foxtrote. Logo, com esses efeitos cênicos, a narrativa de uma testemunha de seu tempo merece atenção. Recanto da Minha Terra
passa longe de qualquer ranço acadêmico, mas guarda em suas páginas a
saga da gente de Cafelândia que sem dúvida foi cenário de alegrias e
tormentos comuns ao gênero humano. Não estou autorizado a
revelar a idade de Edson. Sei que ele é um jovem que já ultrapassou a
casa dos oitenta. Jovem porque ele renasce em cada novo trabalho. Jovem
porque ele procura com paciência de quem lapida, os fatos que marcaram
a trajetória de sua gente digna de seu registro. Muitos passaram
pelas grupiaras da região do Garças. Poucos se deram ao trabalho de
fazer apontamentos dos fatos de sua época. Edson é um deles. Um autor
que resgata seu tempo porque tem compromisso com a História. Comentários (0) Sugerir Imprimir Topo Acessos (1045)
18/01/2008 A gramática dos anos de chumbo A noite escura proporcionada pelo golpe de 64 deixou suas marcas por todos os cantos. Naqueles dias eu era um menino que nascia para a vida. Lembro do dia golpe, de soldados percorrendo as ruas em busca do inimigo oculto que os golpistas diziam ameaçar a Segurança Nacional que eles prezavam mais do que a própria nação.
Nas conversas que de modo (in)formal teço no âmbito doméstico para meus filhos aprecio cutucar a falecida ditadura com vara curta. Vamos, então, ao saldo daquele desastre político patrocinado pela direita: 352 mortos, 152 desaparecidos, 2 mil torturados, 4.500 pessoas privadas do direito civil, 10 mil exilados, 50 mil detidos e 2.828 sentenciados à prisão pela Justiça Militar.
Naquele confronto entre duas facções que se bicavam a esquerda fez 134 vítimas, seqüestrou 4 diplomatas, explodiu bombas em quartéis e um aeroporto, seqüestrou aviões, entre outras estratégias daquela guerra invisível.
A direita daqueles dias se portava como redentora de um mundo que ela queria longe do socialismo. Um operário no poder seria algo desagregador. Esta ideologia perdurou até o final do século passado onde o passaporte para subir a rampa do Planalto era possuir o título de bacharel.
O mais eminente deles, todos se lembram, foi FHC. A cultura acadêmica afetou a sua longa gestão. A cada gesto deixava transparecer que o seu sucessor deveria ser escolarizado. Outros saberes seriam nulos. Privar da amizade de grandes vultos da República, nulo. Preceptores como Florestan Fernandes, Raymundo Faoro, Frei Betto, não. Esquerda, não.
Essa gente da ditadura e pós-ditadura de que estamos a falar governava com prudência incauta e com um pé no freio. Na dança de cabra-cega que patrocinaram à nação deixaram severos remendos em nosso tecido social que se leva ainda décadas para consertá-los. Apesar da política de inclusão social do atual governo ainda há muito a ser feito pelos grotões do Brasil afora.
De vez em quando ainda nos deparamos com fatos inusitados de extrema pobreza. Não preciso dizer que a penúria humana é causada pela injustiça social. Cito um exemplo que se tornou público na revista Fotografe Melhor A fotografia como arma para salvar um circo (dezembro de 2007), do repórter Brito Jr. de Teresina.
O Grand Circo Los Angeles gravita na periferia da capital piauiense. Ingressos a 50 centavos para quem pode pagar. O palco do espetáculo de todas as noites é sob uma lona em frangalhos. Os meninos do circo vendem docinhos para aumentar a renda da empresa. A vida passada a limpo da família do Los Angeles comoveu muita gente. Portanto deixo aqui o número da conta poupança da Caixa em nome do proprietário Aurenildo Acyoli Assunção: 74141-9. Qualquer ajuda é bem vinda.
Mas, voltando ao conversote doméstico lembro que contei certa vez uma fábula para ilustrar os idos daqueles dias de chumbo. Disse que se tratava de um parente distante que atendia por Zeca. Ele não era o Jeca, lia Monteiro Lobato e sofria de impaludismo. Era leitor voraz de todos os almanaques. Enriquecia de modo involuntário o vernáculo de nossa gente. Para cada substantivo ele jogava uma versão desconhecida à nossa plebe incauta. Se um de nós passava montado em um burrico ele soprava o substantivo “asnos”.
Acossado pela mulher, Zeca viajou nas vésperas do feriado de 7 de Setembro para fazer exames de fezes na capital de onde voltou com o novo vocábulo. As duas sílabas de cinco letras fatais ficaram gravitando seus sentidos na manhã do feriado cívico.
Em função de sua sabedoria lá estava Zeca no palanque oficial com a cabeça empinada ao lado das autoridades militares, civis e eclesiásticas. Naqueles dias de ditadura o governo mandou uma tropa para abrilhantar o desfile da cidadezinha.
Graças à sua fluência vocabular Zeca foi chamado ao palanque. O fervor cívico tomou conta dos recrutas que prestaram continência às autoridades do palanque, (incluindo Zeca). Comovido ele não se conteve e também bradou o seu grito: Independência ou, ou, ou Fezes!
Nocivo à Segurança Nacional daqueles dias Zeca teve que acompanhar a tropa para novos exames na capital. Seguiu à moda dos mártires. Esqueceu ou foi proibido de levar consigo seus almanaques encardidos. Comentários (0) Sugerir Imprimir Topo Acessos (937)
03/12/2007 Breve passagem entre dois caubóis Assisti a duelos impossíveis no já extinto Cine Araguaia de comprida memória cultural. Duelos de vida e morte. É difícil esquecer Kirk Douglas e a mira de seu colt implacável. Para quem venera o gênero o doce segredo fica também para a trilha sonora de todos os westerns. São poucos os que sabem degustá-la com merecido enternecimento. Em um bom faroeste tudo é belo. É como uma asinfonia onde uma peça se adapta perfeitamente à outra.
Creio que muitos já assistiram pelo menos um bom faroeste na vida. Um bang-bang como o Pistoleiro do Rio Vermelho ou o espaguete Dólar Furado, com Giuliano Gema ou a Marca do Vingador no conforto de uma poltrona.
A gente nativa e da minha geração já teve a infeliz oportunidade de assistir duelos ao vivo que no Araguaia. Naqueles dias esses duelos eram chamados mesmo de troca de tiros. Era uma desgraça e que sempre alguém descia para o cemitério ou para a resignação de meses estendido numa cama de campanha.
Fiz este preâmbulo sobre faroestes para rubricar uma passagem em que fui protagonista sem nunca ter sido caubói.
Antes de ser moleque graúdo acharam por bem me enfiar numa escola onde se oferecia na merenda um copo de leite denominado “leite de padre.” Coisa de americanos com a tal campanha “Aliança para o Progresso”, quando eles se pelavam de medo de que o comunismo tomasse conta do mundo.
Pois bem, eu tenho parentes que são dados a festas. Não sei contar as vezes que subíamos no caminhão da prefeitura para arrasta-pé em fazendas desse imenso Vale. Festas que duravam dias.
Eu voltava dessas escursões revigorado. Os adultos, por sua vez, deixavam que eu escutasse os reclames de dores de cabeça, motivada pela ressaca ou mesmo no corpo de tanto rodopiar noite inteira. Mas tudo aquilo era coisa passageira até o prenúncio de outra festa.
Em junho chegou-nos o convite para um São João na região do Sobra onde moravam famílias de agricultores, entre eles um meu tio, grande festeiro de nome reconhecido por Manoel Wanderley, devoto de muitos santos.
No caminho, assim que passamos pelo chamado Posto Agropecuário, o cair da tarde animou a todos. Uma garrafa passava pela mão dos adultos enquanto um sujeito se encarregava de soltar foguetes pelo longo declive afora e que nos levaria à festa de São João, primo santo do redentor dos homens.
Naqueles idos o São João consistia no levantar do mastro, batizados e casamentos ao redor da fogueira e somente depois viria o leilão com prendas colhidas ali mesmo, a exemplo de doces, melancia, farofa, frangos, bacorinhos, garrafas de pinga e bandeirolas multicoloridas para dar à festa o ar de toda alegria.
O terreiro da fazenda, com direito a cercas dos currais e tudo foi transformado em salão de festa. Lembro-me que improvisaram bancos ao pé da cerca em torno da mesa coberta de prendas.
O leiloeiro pôs nome a tudo e depois repassava com ar de muita graça um “dou-lhe três” a quem oferecesse maior lanço. A noite já estava fria quando observei que o leiloeiro deixara de gritar para sair correndo em direção aos fundos da casa.
O pátio que antes estava repleto de pessoas ficou deserto em segundos. Somente dois homens pareciam conversar assunto sério e com tom de voz elevado e dedo em riste na direção do focinho do outro.
Estavam, então, naquele trocar de insultos quando me cutucaram as costas. Eu voltei indignado para saber do que se tratava e o rapazote apontou para a porta da casa que ficava a meia distância e disse: “A madrinha está te chamando agora. Vem por aqui”.
Imaginei de pronto: por que dá um volta quando se quer chegar tão perto? À moda dos bravos mirei os dois sujeitos que já estavam apartados depois da preliminar de agudos safanões e ficaram a certa distância como se fosse para dar passagem ao pequeno caubói distraído que atravessou incólume entre os dois bravos.
Quando cheguei ao rés do batente fui abdusido por um puchão de orelha enquanto a taboca rachava lá fora e alguns mofinos já pediam por misericórdia num momento daqueles.
Fui levado pela orelha ao quarto que já não cabia mais de meninos, mas de onde se podiam ouvir os tiros que chagavam lá de fora e mais os gritos de “ai” e também de “mamãe” metidos dentro do bananal plantado às margens do rio.
Assim que cessou o tiroteio consegui sair escondido e fingindo desinteressado vi que as mulheres acudiam um homem com a perna quebrada e outro que levou um tiro de raspão na cabeça.
Enquanto isso outros homens culpavam um forasteiro que veio sem ser convidado para botar olho graúdo em cima das moças de nome. “Brincar, vadiar, tá certo, mas abusar de companheiro, não!” decretou o dono da festa que nem chegou ensair os primeiros passos, claro.
Passada aquela refrega presenciei ainda outras cenas dignas de caubóis. O tempo passou e a viloência tornou-se banalidade de todos os noticiários de jornais e TV. Nos grandes centros urbanos a violência faz parte do cotidiano das pessoas. Mesmo indignados aceitamos esta realidade cruel.
Voltando ao faroeste de antanho (como diria minha finada avó), sempre que asisto a um caubói e quando chega aquele momento fatídico em que os dois vaqueiros dasafiam a valentia do outro eu brinco com meus filhos e digo “Eu já passei entre dois bravos assim”.
Eles pensam que eu estou brincando. Comentários (0) Sugerir Imprimir Topo Acessos (1069)
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